Teremos nós considerado esse Homem solitário, que ia, madrugada, «muito antes do romper do dia», para um lugar deserto, para orar? Tê-Lo-emos nós ouvido repetir a palavra do profeta: «Ele desperta-me todas as manhãs, desperta-me o ouvido para que ouça»? E, se o temos feito, não terá sido grande a nossa admiração ao vermos Aquele que tudo possui, o Criador e Senhor dos infinitos, prostrado, ao amanhecer, em oração a Seu Deus e Pai? Aquele que conhecia todas as coisas, tinha, pois, necessidade de «escutar» todas as manhãs, de estar atento e vigilante, como se de um simples aluno se tratasse! Neste mundo, Ele era o Homem dependente, o Homem humilhado, o Homem obediente, que nos deixou um modelo a fim de seguirmos os Seus passos.
O «pão do Céu» estava diariamente à sua disposição, mas deveria ir colhê-lo todos os dias, antes do Sol nascer! Se o próprio Senhor Jesus, como homem, sentia a necessidade dessa hora matinal em íntima comunhão com o Seu Pai, não deveríamos nós, fracos e ignorantes como somos, compreender também a sua necessidade e o seu valor?
Os Seus dias eram tão cheios que, por vezes, nem sequer tinha tempo para partir o pão com os Seus discípulos! Mas, apesar de tudo, os primeiros momentos do dia eram consagrados à oração e à meditação solitárias — base de uma atividade que subia inteirinha até Deus, como um perfume muito suave.
Conheceremos nós a doçura desses momentos passados assim, ao romper do dia, na solidão, a Seus pés? Quando tudo ainda dorme à nossa volta, teremos nós o hábito de irmos tirar a água viva ao «poço» d'Aquele que vive e que Se revela; de irmos saborear as Suas misericórdias, que são renovadas cada manhã? (Lm 3:23). É lá, a sós com Ele, que ouvimos a Sua voz, nas páginas do Livro que Deus nos deu. Ali nos rendemos a conhecê-Lo, a considerá-Lo; aprendemos d'Ele, para refletirmos, nas horas que vão seguir-se, algo das perfeições que o Espírito Santo nos tiver feito descobrir nessa Pessoa maravilhosa.
Após tê-Lo «deixado falar», poderemos então, por nosso lado, dizer-Lhe tudo o que tivermos no coração, colocar todos os nossos problemas perante Ele: «Pela manhã ouvirás a minha voz, ó Senhor; pela manhã me apresentarei a ti, e vigiarei» (SI 5:3).
O Inimigo é hábil para nos arrebatar esses momentos, ou, pelo menos, para os reduzir a tal ponto que perdem muito ido seu sabor. A hora do trabalho que se aproxima, a fadiga da véspera, consequência, por vezes, de um serão excessivamente prolongado, e tantos outros pormenores, ornam-se pretextos para abreviarmos esta meditação matinal. Todas as manhãs, o Israelita no deserto ia apanhar o maná para aquele dia; não fazia provisões. O «pão do Céu» estava diariamente à sua disposição, mas deveria ir colhê-lo todos os dias, antes do Sol nascer! (Êx 16:21).
Quando, a sós com Ele, o Senhor nos tiver assim falado, guardemos cuidadosamente no nosso coração a «palavra» especial que Ele nos tiver dado. Anotemo-la; repitamo-la no nosso íntimo durante o dia; ponhamo-la em prática! Assim vivida, tomar-se-á como uma parte de nós mesmos, como um tesouro que pouco a pouco transformará o nosso coração. E se o nosso Deus permitir um tempo de provação na nossa vida; se essa provação reaparecer «todas as manhãs», não nos esqueçamos de que o Seu coração se ocupa de nós (Jó 7:17-18).
Tendo Ele conhecido o sofrimento como conheceu, pode bem ocorrer a todas as nossas enfermidades. Vamos, pois, a Seus pés, ao romper do dia, escutar a única voz que sabe fortalecer com uma palavra o que está cansado, aumentar a energia 'ao que carece de vigor!’
Temos necessidade de beber dessa preciosa Fonte, de nos assentarmos à Sua sombra, de saborearmos o Seu fruto. Portanto, repitamos com Moisés a oração de outrora: «Sacia-nos de madrugada com a tua benignidade, para que nos regozijemos e nos alegremos todos os nossos dias» (SI 90:14) — esperando a manhã sem nuvens, onde a alegria será perfeita e eterna, porque ali O veremos.
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